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20 março 2008

O Papel do Cientista nas Decisões Éticas

Por mais que se queira dissociar o tema deste mês do confronto "ciência vs. religião", não há como fugir a isto, uma vez que o próprio tema surgiu da atualidade da decisão que o Supremo Tribunal Federal vai ter que tomar (em minha opinião, já devia ter tomado...) sobre uma questão de suposta "ética", que, na verdade, é apenas sobre um dogma religioso.

Sendo assim, não me resta outro remédio senão analisar, desde a origem, a convivência entre "ciência e religião", uma vez que sou suspeito por ambos os "lados" desse confronto.

Eu afirmei, em comentário ao artigo do Osame, que as religiões tiveram como base a "ciência" (na sua acepção de "conhecimento adquirido"), só que as religiões não foram capazes de se adaptar ao progresso da ciência e se tornaram, mesmo, um entrave ao progresso da humanidade, quando deveriam ser, ao contrário, um esteio ético para este desenvolvimento.

Voltemos à pré-história e analisemos a "ciência" de então, para podermos avaliar de onde surgiu toda essa idéia de "religião" e qual papel ela deveria ter, bem como sua ligação com os conceitos de "moral" e "ética".

A primeira coisa que nossos ancestrais devem ter reparado, deve ter sido a alternância quase regular entre o dia e a noite. Recém saídos de uma Era Glacial que, por pouco não encerrou a promissora carreira desse bando de primatas, o Sol e o calor devem ter sido particularmente proeminentes, apesar da grande importância da Lua, principalmente da Lua Cheia que permitia uma melhor vigilância contra os predadores noturnos. [Parêntesis (primeiro de uma série de muitos): existe muita discussão quanto à coincidência dos ciclos lunares e a fertilidade das mulheres. Usando um raciocínio bem primário, se pode aventar a hipótese de que as mulheres que ficavam férteis no período da Lua Nova, teriam uma melhor chance de procriação; nessas noites mais escuras, é de se esperar que os caçadores estivessem de volta à proteção da caverna...] Bom, já temos duas entidades cujo comportamento era particularmente importante para os humanos e, portanto, sérios candidatos a serem deificados...

Mas qual seria a idéia de um "Deus"?... Afinal, com quem os homens podiam se comparar para criar os seres superiores?... Certos animais eram mais fortes, outros mais rápidos, outros demonstravam habilidades especiais de visão, audição, alguns, mesmo, pareciam possuir um "sentido" desconhecido aos homens. Ora, se os homens eram "superiores" aos animais, os "Deuses" deveriam ser "superiores" aos homens na mesma medida: mais fortes, mais inteligentes, mais belos, mais tudo... "Super-homens". E é exatamente o que vamos encontrar nas primeiras civilizações: "super-homens" com atributos animais. E, como toda tribo tinha um chefe, normalmente escolhido entre os mais "sábios" (ou seja, mais velhos - a figura do guerreiro-chefe só veio aparecer mais tarde) e as mulheres eram naturalmente mais longevas, o matriarcado parece ser apenas um resultado natural. Logo, as Deusas-Mães são apenas um passo lógico adiante. [Parêntesis: em diversas culturas a associação de gênero é inversa à que temos hoje em dia: é A Sol e O Lua...] A "civilização" ("reunião em cidades") parece ter acabado com o matriarcado: os antigos caçadores-coletores já podiam ficar nas habitações, sem se afastar demais dos rebanhos e plantações, e a força física dos machos da espécie, combinada à fragilidade da mulher gestante, parece ter relegado as mulheres a uma função "subordinada" - a de "reprodutora", uma vez que a sobrevivência ainda dependia muito dos números. Os Deuses machos começam igualmente a assumir o comando...

E, de uma pletora de "Deuses" que "governavam" todos os fenômenos naturais, cuja imprevisibilidade era uma ameaça à sobrevivência da espécie e precisava de alguma maneira de "ser propiciada", à exemplo dos homens que os criaram, os Deuses precisavam de um "chefe". E, como tudo que se conhece e é vivo, nasceu e morre, também os Deuses precisavam ter nascido de algum lugar. "É claro" que vamos precisar de um "criador" que, do nada, criou tudo o que existia...

E chega de digressão acerca de Deuses e Deus... O importante é que todas essas noções nasceram da "ciência" disponível: a observação da Natureza e a comparação das coisas da natureza à única medida disponível: o ser humano.

Passando à questão de "moral" e "ética", a Teoria dos Jogos está aí mesmo para comprovar, matematicamente, que o "jogo da sobrevivência da espécie" passa, necessariamente, pelo "altruísmo". Embora em questões menores o "gene egoísta" seja preponderante, para a sobrevivência de uma sociedade é fundamental que o altruísmo seja incentivado. Qual incentivo melhor para forçar um comportamento harmonioso e devidamente cooperativo do que "a vontade divina"?... O medo da morte pode ser habilmente explorado com a crença em uma "vida eterna", na qual o indivíduo será "julgado" por tudo o que fez e deixou de fazer - segundo um conjunto de normas atribuídas ao(s) Deus(es) - e terá recompensa pelos eventuais sofrimentos injustos a que se submeteu, enquanto os infratores serão severamente punidos, por mais "poderosos" que possam ter sido nesta Terra.

Essa é a base de toda e qualquer religião: "esta vida não é tudo" e "quem se comportar bem, ganha um presente"... E este "se comportar bem" geralmente inclui todas as normas necessárias ao "jogo cooperativo" entre os vivos (e os "mais vivos", diria o Barão de Itararé...). Toda a ética humana pode ser resumida a: "não faça com os outros o que você não gostaria que fizessem com você". E todas as "normas morais" que forem além de "mulheres e crianças primeiro, depois os idosos (sua sabedoria é útil...)" é pura conveniência local.

E a humanidade poderia ter ficado nisso e apenas deixado que a inveja, a cobiça e a preguiça assumissem seus aspectos positivos: a inveja estimulando o aperfeiçoamento pessoal (não que os demais piorem); a cobiça estimulando a "ter mais" (não necessariamente tirando de quem tem; quando toda a sociedade prospera, cada indivíduo é beneficiado); e a preguiça buscando soluções mais eficientes e menos trabalhosas para realizar o trabalho inevitável (não postergando o que tem que ser feito).

Mas o ser humano é um bichinho curioso... Quer porque quer saber como, quando, onde e por que... E não descansa enquanto não conseguir controlar tudo, desde o meio-ambiente até a "vontade de (os) Deus(es)". E como (os) Deus(es) é(são) caprichoso(s) e nunca desvenda todos os seus segredos, o ser humano resolveu que ia estudar, até entender, pelo menos os mistérios da Natureza. E, de repente, descobriu que não morava no Centro do Universo, mas em um planetinha xinfrim, que orbita uma estrela de quinta, na periferia de uma galáxia perfeitamente medíocre, entre um nunca-acabar de galáxias... Aquele "Super-homem" com poderes compreensíveis e bajulável para ser propício, corruptível com meia-dúzia de louvaminhas e "protestos de elevada estima e consideração" (junto com um suborninho...), já não dava mais para a tarefa para lá de hercúlea de criar um universo desse tamanho... O(s) Deus(es) ficou(aram) irremediavelmente paroquiano(s).

Pior: o ser humano descobriu que nem seu aparente controle do meio-ambiente é suficiente... Nem a velha "Mamãe Natureza" está disposta a aguentar indefinidamente os maus modos desse filho bestalhão que gasta como se não houvesse amanhã... Tudo o que o homem tira da Natureza, está fadado a voltar para ela, com direito a uma catástrofezinha para ensinar ao moleque que com "Mamãe não se brinca"... De "ápice da Criação" e "imagem e semelhança do Criador", o ser humano se viu reduzido, por sua própria curiosidade, a um triste macaquinho "melhorado" que - por muito favor - tem um planeta para morar, mas tem que cuidar dele, senão, é "despejado" e o Planeta nem liga... (e (os) Deus(es) também não...)

Sem este "Deus-bedel" para vigiar e punir/recompensar, sem sequer um "referencial inercial absoluto" para calcular, de onde derivar as certezas sobre o que é "certo" ou "errado"?... Da velocidade da luz no vácuo?... Da absoluta amoralidade da "seleção natural", um "Jogo de Soma Zero", onde a fome do lobo tem o mesmo valor que a vida do carneiro?...

Não... Certamente a ciência não tem respostas para a eterna pergunta da humanidade: "o que é que eu estou fazendo aqui?" E pode apenas apontar, estatisticamente, qual comportamento - a curto prazo - pode trazer uma recompensa maior. O ser humano é muito pequeno, mesmo se comparado apenas com o planetinha xinfrim onde vive... A humanidade pode ser apenas uma doença cutânea temporária no planeta e toda a sua filosofia e ciência serem uma "ilusão impermanente", como afirmam os buddhistas...

E, afinal, qual é o papel do cientista nas Decisões Éticas?...

Apenas isso: buscar os fatos!... Apontar as inconsistências da auto-imagem que o ser humano tem de si próprio e lembrá-lo, sempre, que, se existe um Deus (ou Deusa, ou Deuses...), ele(a, es) é(são) profundamente indiferente(s) a detalhes insignificantes como os enormes dinossauros ou toda a nossa "ciência" E TEMOS QUE PARAR DE NOS COMPORTAR COMO CRIANÇAS MIMADAS E ASSUMIR RESPONSABILIDADE POR NOSSOS ATOS, PORQUE NÃO ADIANTA REZAR QUE A ÁGUA NÃO VAI SUBIR O MORRO!...


Nota de rodapé: seja qual for a decisão do STF sobre as células-tronco embrionárias, nada vai mudar o fato de que aquele embriões estão vivos, mas não são gente... Quer o Papa (o Dalai Lama, ou o Bispo Macedo) goste disso ou não!...

(Comentários aqui, por favor).


20 fevereiro 2007

Ciência vs, Religião?...



«Ciência sem religião é capenga.
Religião sem ciência é cega.»

Albert Einstein

«A fé é a esperança infundada
na ocorrência do improvável»

Henry Louis Mencken

«Se você fala com Deus, você está rezando.
Se Deus fala com você, você está maluco»

Ditado Popular

O tema deste mês no Roda de Ciência é um pouco delicado para mim: eu não só sou religioso, como pratico uma religião particularmente discutível, a Umbanda.

É... Eu acredito em espíritos, Orixás e todas essas coisas consideradas "coisa de gente de pouca cultura" e que - aparentemente - só são aceitas por pessoas de uma credulidade absurda.

Como é que alguém que se diz apaixonado por ciência consegue conciliar o indispensável ceticismo científico com a necessára credulidade do religioso?

Simples... Eu não misturo uma coisa com a outra. Não procuro explicar fatos científicos com "manifestações divinas", nem procuro entender os fatos ligados à experiência religiosa, com "explicações científicas".

Toda a vez que as religiões se meteram a "explicar" o Universo, quebraram a cara. Aliás, eu sou o primeiro a admitir que existe uma enorme quantidade de obras de suposta "inspiração divina", ou "psicografadas" por médiuns, que são de uma tolice e uma banalidade incríveis. Coisa de "quem ouviu cantar o galo, mas não sabe onde". E é bem fácil ser mistificado por essas asneiras simplistas: basta pegar em alguns termos pseudo-científicos - com base em termos científicos de difícil compreensão - e você vai ter algo que passa por "alta ciência". Nem os papers verdadeiramente científicos estão livres desse tipo de asneira.

O chato é que o reverso também é verdadeiro. Toda vez que a ciência se mete a "desprovar" a religião, acaba esbarrando em "efeitos placebo" que desafiam o "estado-da-arte". Tudo bem... A ciência verdadeira só se preocupa em registrar os fatos experimentais, tenham eles explicação conhecida ou não (vide o Efeito Mpemba) e procurar, dentro das limitações tecnológicas, obter as explicações mais plausíveis para os fenômenos observados.

Todo este blá-blá-blá sobre "ciência vs. religião" se deve a um ressurgimento da intolerância ignorante de fanáticos religiosos - mais exatamente de Cristãos Fundamentalistas e nos Estados Unidos - que insistem em fazer com que a ciência se encaixe em suas concepções pré-moldadas por "Escrituras Sagradas" e são tão arrogantes que pretendem ter percebido um "Intelligent Design" no Universo, porque o mero fato de que estamos aqui demonstra que a evolução do Universo passa pela existência do ser humano, e tomam tal constatação como "prova" de sua megalomaníaca certeza de que fomos "criados à imagem e semelhança de Deus"... embora qualquer análise um pouco mais isenta demonstre claramente que isso - nos próprios termos da religião que dizem professar - seja uma blasfêmia.

Por outro lado, os céticos impedernidos caem na esparrela e procuram demonstar o indemonstrável: a não-existência de algo. E o argumento é sempre o mesmo: a ausência de prova de existência... coisa que qualquer cético que se preze, sabe que não vale como prova.

Não estou aqui para fazer proselitismo religioso: não quero "converter" pessoa alguma. Inclusive acho que a maioria dos ateus é mais decente e merecedora do suposto "Reino dos Céus" do que a maioria dos religiosos. Não me consta que ateu algum tenha mandado alguém para a fogueira por professar uma religião... E - apesar de crer em um "algo maior" que pode ser chamado de "Deus" por falta de termo melhor - não entra em minha cabeça que este "Criador" tenha feito um universo com regras tão rígidas e "universais" (também por falta de termo melhor) e vá ficar quebrando essas regras, só para extasiar os caipiras de um planetinha xinfrim que orbita uma estrela de quinta, na periferia de uma galáxia perfeitamente medíocre...

Enquanto isso, vou continuar traduzindo o Physics News Update, sempre que não estiver fazendo minha macumbinha... E - se acharem que eu sou maluco - eu respondo o que Pai João Benguelê me disse: «Tá malucado, fiaco?... Malucado, mas feliz...»

(Quem quiser comentar, por favor, o faça aqui)

24 agosto 2006

Ah!... Eu já sabia!...

Há! Há! Há!... Plutão não é mais planeta! Plutão não é mais planeta! (Ouça-se isto dito naquela cantilena de criança gozando a cara de alguém)

Eu não tenho nada contra Plutão, Sedna, Xena ou qualquer outro objeto no Sistema Solar. Eu estou gozando a cara dos Astrólogos.

Como místico incorrigível que sou, eu cheguei a estudar Astrologia, fazer Cartas Natais, etc. Pode parcer incrível, mas encontrei muitas "coincidências" que me levam a crer que os astrólogos podem até estar certos, pelos motivos errados.

Mas uma coisa jamais me desceu pela goela. Quando descobriram Plutão, os astrólogos resolveram – para não parecerem "anti-científicos" – incluir Plutão nos seus cálculos, contrariando toda uma tradição milenar. Eu não conseguia engolir isto porque, ou eles estavam passando um atestado de que os astrólogos antigos faziam previsões erradas (e, portanto, a astrologia era tão "ciência" como qualquer outro método de adivinhação e não devia ser levada a sério), ou estariam adimitindo que uma porcaria de pedrisco, lá nos confins do sistema solar podia ter a mesma influência sobre as pessoas do que os "astros" mais próximos; então, por que não considerar Ceres, Titan, os asteróides razantes e outros "corpos celestiais" mais próximos, maiores e com influência mais direta sobre a gravidade e o magnetismo terrestre?). Eu já achava duvidosa a suposta influência de Urano e Netuno, quanto mais a de Plutão.

Agora, eu quero ver como os astrólogos vão se sair dessa!...

Em tempo: quando eu disse que os astrólogos poderiam estar certos pelos motivos errados, o que eu quiz dizer é que as datas e horas de nascimento de uma pessoa podem ter influência sobre sua personalidade. E as "coincidências" que eu encontrei, em diversas experiências, me levaram à convicção de que alguma coisa pode ser aproveitada da astrologia (como, de resto, da quiromancia). Algo assim como a Física e a Química atuais terem se originado da "Filosofia Natural" e da "Alquimia" que, em muitas coisas, estavam certas, pelos motivos errados.

Eu acho profundamente estúpido descartar um ramo do conhecimento humano, simplesmente rotulando de "misticismo". Sir Fred Hoyle quebrou suas lanças contra o "Big-Bang", exatamente por achá-lo uma hipotese "criacionista", notadamente pela contribuição do Padre Lemaître à teoria.

É mais honesto (e "científico") dizer que não existem indícios que comprovem ou "desprovem" um determinado "fato" (que, na maioria das vezes, nem "fato" é...), do que ridicularizar os crentes sonhadores.

Isaac Asimov disse que os cientistas não se sentem na obrigação de explicar tudo; os místicos é que têm "resposta" para tudo.

Eu que sou - ao mesmo tempo - místico para consumo próprio e cético, quando se trata de ciência, adoro ver quando um radical "quebra a cara" (e cientistas "quebram a cara", também... isso só é vergonha se for provado que os dados da pesquisa foram forjados ou manipulados em favor de sua teoria). Da mesma forma, adoro ver os pseudo-cientistas em apuros quando, logo após terem feito uma "adaptação" de um "fato" de suas pseudo-ciências para parecerem "científicos", a ciência muda de rumo e eles ficam com mais uma "explicação" furada nas mãos...