03 junho 2006

Um Texto de Carlos Castañeda

Relendo o primeiro (e, dizem, o único verdadeiro) livro de Carlos Castañeda, "A Erva do Diabo", eu me deparei com um trecho particularmente interessante. O livro já é interessante por apresentar um estudante universitário, de origem sulamericana, tentando estudar o comportamento de um feiticeiro índio mexicano, enquanto o feiticeiro tenta transformar o universitário em um feiticeiro índio.

O trecho em questão, trata das dificuldades do aprendizado da magia. Mas, se transportarmos as idéias para qualquer tipo de conhecimento, elas permanecem surpreendentemente válidas. Eu tomei o cuidado de omitir uma série de passagens que nada acrescentam à idéia básica do texto (ou, dito de outra forma, eu tirei toda a baboseira com a qual o Castañeda "enche linguiça").

Lá vai:

– "Quando um homem começa a aprender, ele nunca sabe muito claramente quais são seus objetivos. Seu propósito é falho; sua intenção, vaga. Espera recompensas que nunca se materializarão, pois não conhece nada das dificuldades da aprendizagem."

"Devagar, ele começa a aprender... a princípio, pouco a pouco, e depois em porções grandes. E logo seus pensamentos entram em choque. O que aprende nunca é o que ele imaginava, de modo que começa a ter medo. Aprender nunca é o que se espera. Cada passo da aprendizagem é uma nova tarefa, e o medo que o homem sente começa a crescer impiedosamente, sem ceder. Seu propósito toma-se um campo de batalha."

"E assim ele se depara com o primeiro de seus inimigos naturais: o medo! Um inimigo terrível, traiçoeiro, e difícil de vencer. Permanece oculto em todas as voltas do caminho, rondando, à espreita. E se o homem, apavorado com sua presença, foge, seu inimigo terá posto um fim à sua busca."

(...)

– "E o que pode ele fazer para vencer o medo?"

– "A resposta é muito simples. Não deve fugir. Deve desafiar o medo, e, a despeito dele, deve dar o passo seguinte na aprendizagem, e o seguinte, e o seguinte. Deve ter medo, plenamente, e no entanto não deve parar. É esta a regra! E o momento chegará em que seu primeiro inimigo recua. O homem começa a se sentir seguro de si. Seu propósito toma-se mais forte. Aprender não é mais uma tarefa aterradora. Quando chega esse momento feliz, o homem pode dizer sem hesitar que derrotou seu primeiro inimigo natural."

(...)

– "Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque, em vez do medo, ele adquiriu a clareza... uma clareza de espírito que apaga o medo. Então, o homem já conhece seus desejos; sabe como satisfazê-los. Pode antecipar os novos passos na aprendizagem e uma clareza viva cerca tudo. O homem sente que nada se lhe oculta."

"E assim ele encontra seu segundo inimigo: a clareza! Essa clareza de espírito, que é tão difícil de obter, elimina o medo, mas também cega."

"Obriga o homem a nunca duvidar de si. Dá-lhe a segurança de que ele pode fazer o que bem entender, pois ele vê tudo claramente. E ele é corajoso porque é claro; e não para diante de nada, porque é claro. Mas tudo isso é um engano; é como uma coisa incompleta. Se o homem sucumbir a esse poder de faz-de-conta, terá sucumbido a seu segundo inimigo e tateará com a aprendizagem. Vai precipitar-se quando devia ser paciente, ou vai ser paciente quando devia precipitar-se. E tateará com a aprendizagem até acabar incapaz de aprender qualquer coisa mais."

(...)

– "Mas o que tem de fazer para não ser vencido?"

– "Tem de fazer o que fez com o medo: tem de desafiar sua clareza e usá-la só para ver, e esperar com paciência e medir com cuidado antes de dar novos passos; deve pensar, acima de tudo, que sua clareza é quase um erro. E virá um momento em que ele compreenderá que sua clareza era apenas um ponto diante de sua vista. E assim ele terá vencido seu segundo inimigo, e estará numa posição em que nada mais poderá prejudicá-lo. Isso não será um engano. Não será um ponto diante da vista. Será o verdadeiro poder."

"Ele saberá a essa altura que o poder que vem buscando há tanto tempo é seu, por fim. Pode fazer o que quiser com ele. Seu aliado está às suas ordens. Seu desejo é ordem. Vê tudo o que está em volta. Mas também encontra seu terceiro inimigo: o poder!"

"O poder é o mais forte de todos os inimigos. E, naturalmente, a coisa mais fácil é ceder; afinal de contas, o homem é realmente invencível. Ele comanda; começa correndo riscos calculados e termina estabelecendo regras, porque é um senhor."

"Um homem nesse estágio quase nem nota que seu terceiro inimigo se aproxima. E de repente, sem saber, certamente terá perdido a batalha. Seu inimigo o terá transformado num homem cruel e caprichoso."

(...)

– "E como o homem pode vencer seu terceiro inimigo, Dom Juan?"

– "Também tem de desafiá-lo, propositadamente. Tem de vir a compreender que o poder que parece ter adquirido na verdade nunca é seu. Deve controlar-se em todas as ocasiões, tratando com cuidado e lealdade tudo o que aprendeu. Se conseguir ver que a clareza e o poder, sem controle, são piores do que os erros, ele chegará a um ponto em que tudo está controlado. Então, saberá quando e como usar seu poder. E assim terá derrotado seu terceiro inimigo."

"O homem estará, então, no fim de sua jornada do saber, e quase sem perceber encontrará seu último inimigo: a velhice! Este inimigo é o mais cruel de todos, o único que ele não conseguirá derrotar completamente, mas apenas afastar."

"É o momento em que o homem não tem mais receios, não tem mais impaciências de clareza de espírito... um momento em que todo o seu poder está controlado, mas também o momento em que ele sente um desejo irresistível de descansar. Se ele ceder completamente a seu desejo de se deitar e esquecer, se ele se afundar na fadiga, terá perdido a última batalha, e seu inimigo o reduzirá a uma criatura velha e débil. Seu desejo de se retirar dominará toda a sua clareza, seu poder e sabedoria."

"Mas se o homem sacode sua fadiga e vive seu destino completamente, então poderá ser chamado de um homem de conhecimento, nem que seja no breve momento em que ele consegue lutar contra o seu último inimigo invencível. Esse momento de clareza, poder e conhecimento é o suficiente."

2 comentários:

ghusky disse...

O livro parece ótimo João.
Como tu disseste, este trecho relacionado ao ensino da magia, pode ser totalmente aplicado em nossa sede pelo dito conhecimento.

Vou salvá-lo!

Esse trecho é fantástico.
"Mas se o homem sacode sua fadiga e vive seu destino completamente, então poderá ser chamado de um homem de conhecimento, nem que seja no breve momento em que ele consegue lutar contra o seu último inimigo invencível. Esse momento de clareza, poder e conhecimento é o suficiente."

Anônimo disse...

O termo para o medo do novo é neofobia de neofilia.
A neofobia vem quando se tem um monte de crenças e mitos, mais particularmente religiosa e o conhecimento começa desmontar tudo que construiriam para a gente e nós acabamos sustentando com nossa convicção de que existem verdades eternas.
Nada no conhecimento humano é permanente "as verdades devem vir com prazo de validade".
Duvidam?
Testem buscando verdades que são fundamentais para a maioria das pessoas, como p. ex "Jesus não existiu" ou "Jesus nunca existiu". Estão com medo? Pq não testem
A bíblia está certa?
Segundo o livro "A bíblia não tinha razão", escritas por 2 arqueólogo, o AT foi escrita pelos século 7 AC pelo rei Josias. Ele juntou um monte de crenças que existiam antes.
Agora sabe-se que foi a China que descobriu o mundo "1421 - o ano em que a china descobriu o mundo"
tem mais esse: http://recantodasletras.uol.com.br/ensaios/429786
O "corpo sonhador" que o nagual descreve é o psicossoma ou corpo astral.
Sobre isso, existe um "Tratado de Projeciologia" de Waldo Vieira que reúne tudo que a humanidade já tratou sobre o tema projeção astral, só a informação e técnicas, sem misticismos, etc.
Quanto ao medo, hoje é mais fácil de lidar com os conhecimentos novos devido ao avanço da ciência, da arquelogia, das reinterpretações da histórias, etc. O novo surpreende mas não assusta a não ser que o sujeito é muito bitolado e vive pelas crenças. Aí todos teremos dificuldades pq se ele chega a uma posição mando, ele tende a formatar o mundo conforme suas crenças (Buch, papa e outros).