11 dezembro 2007

Falência! [2]

Vou começar minha diatribe seguinte, tomando como base o questionamento do Professor Declev Dib-Ferreira, em seu artigo O que é uma boa escola?, no Diário do Professor.

Portanto, a “boa” escola seria aquela que conseguiria fazer aprender aqueles que não aprenderiam apesar da escola, aqueles que não têm o que citamos que os bons têm: aquelas condições extra-escolares que fazem de um aluno, um bom aluno.

Esta sim, seria uma boa escola, que atenderia a todos, sem eliminação da massa e sobrevivência dos ”mais fortes e mais adaptados”. Uma escola para uma nova sociedade.

Fazer seres competitivos é fácil.

Difícil é fazer pra todos.


Aí, vem a pergunta: como?... Não podemos nos esquecer que as crianças têm vários graus diferentes de habilidades de aprendizado (por menos "politicamente correto" que isso possa parecer, é um fato que não podemos ignorar). Se soubéssemos ao certo se isso tem fundo genético, congênito, ambiental, ou uma combinação dos três, seria mais fácil lidar com as disparidades. Mas o fato é que não sabemos e, ao que tudo indica, não saberemos tão cedo. Portanto, é aceitar o fato e procurar a melhor maneira de lidar com ele...

Dizem as mais recentes pesquisas na área da neurociência que essas habilidades começam a se desenvolver na tenra infância, no mesmo passo em que as crianças começam a aprender coisas básicas, tais como falar, andar e controlar os esfíncteres (desculpem... sem referências). O certo é que, quanto mais cedo começar o aprendizado "formal", mais fácil ele se torna. E é nesta fase em que começam a aparecer os "superdotados". No entanto, a idade prevista para o início do aprendizado é entre os 5 e 6 anos, quando o "estrago" já está feito. Nesta idade, as crianças já são mais "parecidas" com o ambiente em que cresceram e, convenhamos, a maior parte desses "ambientes" não é nada favorável aos estudos e ao aprendizado de nada que preste...

Por isso eu dou tanta importância à pré-escola. O hábito de passar algumas horas (ou até a maior parte delas) do dia em um ambiente onde as "brincadeiras" são direcionadas à socialização e ao aprendizado, principalmente o "disfarçado" de forma lúdica, não priva as crianças do divertimento a que têm direito e pode ajudar muito a criar a noção de que "escola é divertido".

E é aqui que eu entro com mais um de meus "achismos". Eu tenho observado, acompanhando a educação de meus filhos e de meu neto (já que não posso confiar nas minhas memórias de infância) que, nestes últimos vinte e poucos anos, uma coisa não mudou: há uma brusca transição da pré-escola para a educação básica. O caráter "lúdico" é, de repente, removido e se procura incutir nas crianças uma preocupação de "levar os estudos a sério". A bendita "nota", "conceito", ou o que for, começa a ser "importante" e "passar de ano" uma "obrigação". Eu não tenho nada contra ensinar as crianças sobre "responsabilidade individual", mas será que essa transição brusca tem mesmo algum significado?... Me lembra muito a "Classificação Etária" para diversas atividades. Por exemplo: um jovem com 17 anos e 364 dias é "inaceitável" para receber uma Carteira de Motorista e ainda é "legalmente inimputável". No dia seguinte, ele já pode sair dirigindo e já pode ser legalmente responsabilizado por todas as ilegalidades que cometer... E, o que era um direito, "o soberano exercício do sua cidadania" (leia-se: voto), a partir dos 16 anos, passa a ser uma "obrigação", cujo não-cumprimento acarreta as penalidades da Lei...

O contra-argumento de "em algum lugar tem que se traçar uma linha divisória", para mim, é falta de argumento... Como se costuma dizer, na Infantaria, "o Regulamento é a Primeira Linha de Defesa do incompetente"...

Como toda transição, essa também pode ser feita de modo suave e não-assustador para as crianças. Bruno Bettelheim (em "Parents Good Enough" = "Uma vida para seu filho") aponta o fato de que a maior parte do desentendimento entre as gerações e á incapacidade dos adultos em verem o mundo com os olhos de uma criança. Para alguém com cinco a seis anos de idade, o universo inteiro tem uns quatro... E adolescentes acham que o "amanhã" sempre vai existir e, portanto, tudo pode ser postergado. Exigências de "ser responsável", como se isso fosse uma noção nata, é de uma total estupidez. Isso de "responsabilidade" é uma capacidade adquirida e deve ser ensinada, não com palmatória, mas com exemplo e incentivo.

Só que isso dá mais trabalho e exige um acompanhamento individual mais próximo, o que acarreta a necessidade de turmas menores, o que, por sua vez, acarreta uma necessidade de mais professores, mais pedagogos, e até de profissionais de fonoaudiologia, psicologia infantil e (é até ridículo mencionar isto...) oftalmologistas...

Mas, se a idéia é criar novas safras de cidadãos melhores do que as já existentes, não há como dissociar o apoio de saúde, o transporte, a alimentação, e - muito importante - o acompanhamento por assistentes sociais das famílias. "Escola" tem que ser mais do que um prédio com salas de aula e professores dentro. Tem que ser um local que preste diversos serviços sociais, inclusive a instrução. Utopia?... Vendo as condições atuais do que passa por "escola" neste Brasil, a idéia parece realmente utópica... Mas nem sequer é nova: a proposta original dos CIEPS, trazida ao Brasil por Darcy Ribeiro, era exatamente esta (não aquela "máquina eleitoreira" de construir prédios pré-fabricados — e outra "heresia": projetados como o nariz de quem os projetou... [sim... eu sei quem foi e o conheço pessoalmente] — à vista de ruas movimentadas que se fez no Estado do Rio de Janeiro).

(continua...)


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